Violência doméstica – Informações e apoio
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Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial
No Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, escrevo a partir de um lugar simultaneamente pessoal e institucional: o de mulher racializada imigrante a trabalhar na CIG. Mas este artigo não é sobre mim, é principalmente sobre o que significa ocupar um espaço que, historicamente, não foi pensado para corpos como o meu e sobre o que podemos, enquanto instituição pública, aprender com essas presenças.
O facto de tantas vezes ser a única mulher racializada imigrante “na sala” não é irrelevante. É um marcador estrutural das desigualdades, algo que investiguei e que pude constatar na minha dissertação de mestrado, A (In)visibilização da Mulher Negra em Portugal – A dupla discriminação silenciada, e que continuo a investigar no doutoramento em Estudos de Género, onde tenho aprofundado conhecimentos sobre o bem‑estar social, aferindo que o mesmo não se resume a rendimentos ou serviços: inclui segurança, pertença, reconhecimento e dignidade. Estes princípios aplicam-se às pessoas e às instituições.
A investigação que produzi no mestrado evidenciou que as mulheres racializadas em Portugal enfrentam barreiras estruturais interseccionais que atravessam género, raça, classe e estatuto migratório. Nas entrevistas realizadas com dez mulheres racializadas e mestiças de variadas idades e estratos sociais, foram relatadas experiências de preconceito, ausência de reconhecimento e falta de oportunidades de progressão profissional. Paralelamente às entrevistas, efetuei observação não participante durante três meses, nos primeiros transportes públicos da manhã (comboios e autocarros) onde a esmagadora maioria das mulheres racializadas, por mim observadas, se deslocavam para trabalhos de limpezas doméstica ou empresarial, reforçando a persistência de padrões ocupacionais subalternizados.
Estas desigualdades não são casuais, são estruturais, e são reproduzidas ao longo do tempo em diversos espaços da sociedade portuguesa.
Por isso, quando uma mulher racializada ocupa um lugar numa instituição do Estado, fora de papéis que historicamente lhe foram atribuídos, numa instituição dedicada às políticas de igualdade, algo muda. A sua presença altera discursos, questiona práticas e abre espaço para perguntas essenciais: “Esta metodologia que usamos é inclusiva?”, “Estamos a considerar todas as interseccionalidades?”, “Sou a pessoa certa para falar sobre este tema ou devo incluir outras vozes?”
O 21 de março convida-nos, por isso, a olhar também “para dentro”. Na CIG, trabalhamos para combater desigualdades e prevenir discriminações, contudo este dia serve para reforçar que o antirracismo deve ser igualmente um exercício interno e de reflexão.
A diversidade interna não é apenas simbólica, é também uma ferramenta estratégica que melhora a qualidade dos processos, que nos enriquece através da partilha quotidiana das nossas vivências, e fortalece a prática democrática e de direitos humanos. A CIG tem dado passos importantes ao integrar nos seus quadros profissionais mulheres racializadas, elevando a qualidade do trabalho coletivo graças à pluralidade de percursos e experiências por elas trazidas.
Quando uma mulher racializada entra numa sala, essa sala muda.
E quando a sala muda, mudam as mentalidades, mudam as práticas e muda a própria compreensão da igualdade.

















