Violência doméstica – Informações e apoio
800 202 148
3060
violencia@cig.gov.pt
O poder da juventude na cocriação da educação
Artigo de Cláudia Múrias*
Assinala-se a 24 de janeiro de 2026 o Dia Internacional da Educação, celebrando o poder da juventude na cocriação da educação.
A comunidade internacional reconhece que a educação é um pilar essencial para promover a prosperidade, a paz e o bem-estar de todas as pessoas. Sem educação inclusiva e equitativa de qualidade e oportunidades ao longo da vida, os países não conseguirão alcançar a igualdade de género e quebrar o ciclo da pobreza que deixa milhões de crianças, jovens e pessoas adultas para trás.
Portugal, nas últimas décadas, avançou na alfabetização e na redução do abandono escolar, mas segundo o “Inquérito às Competências dos Adultos” realizado em 2023 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), cerca de 40% das pessoas adultas têm dificuldades em compreender textos simples e em realizar cálculos básicos, o que indica baixos níveis de literacia em português e matemática. Este facto tem impacto na capacidade de tomar decisões informadas e na participação ativa na vida social, económica e política. A autonomia das pessoas está ligada à capacidade de questionar as tradições e as normas sociais existentes enquadradas nos direitos humanos e nos princípios e valores democráticos, próprios de um Estado de Direito.
Numa sociedade globalizada e exposta a crises, a educação deve ser dialogante, construída coletivamente e permitir experienciar os processos deliberativos com total liberdade. A educação deve trabalhar sobre o conhecimento cientificamente validado, desenvolver o sentido crítico, a empatia, bem como a possibilidade de agir sobre o mundo.
A liderança é fundamental na educação. Importa ter líderes fortes para ajudar as instituições, os sistemas e as sociedades a mudar para melhor. Além disso, a liderança funciona melhor quando é partilhada. É essencial construir ambientes sociais e escolares seguros e promotores de igualdade e de respeito pela dignidade da pessoa humana, que contribuam para o desenvolvimento democrático das gerações e para o desenvolvimento harmonioso da personalidade de cada pessoa em particular.
O Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória e as Aprendizagens Essenciais associadas às disciplinas destacam um conjunto de competências críticas e socioemocionais que devem ser desenvolvidas para concretizar o exercício universal dos direitos humanos. A Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania refere o trabalho em rede, elencando várias entidades parceiras locais que podem ser convocadas na dinamização destes programas de mudança e transformação social.
A abordagem da escola integrada – whole school approach – possibilita o diálogo institucional que envolva ativamente a comunidade escolar alargada, desde estudantes, docentes, psicólogas e psicólogos e demais classes profissionais que atualmente trabalham nas escolas, pais, mães, associações de pais e o associativismo local, desde as associações feministas e defensoras dos direitos das mulheres às associações juvenis, desportivas, culturais e recreativas, toda a comunidade deve participar no plano de atividades centrado do desenvolvimento e empoderamento das raparigas e na responsabilização dos rapazes. Também os centros de saúde e as câmaras municipais, por exemplo, com os conselhos municipais de educação e de saúde, podem ser entidades dinamizadoras destas redes locais. É preciso responsabilizar as instituições públicas para a tarefa fundamental do Estado de promoção da igualdade de género.
À medida que a tecnologia continua a transformar o mundo, raparigas e rapazes devem ter uma voz criativa e afirmativa na cocriação de sistemas educacionais para garantir que o ensino e a aprendizagem atendam às suas aspirações. Importa capacitar para a erradicação da pobreza, da fome, da garantia da saúde e da educação universal, da dignidade no trabalho e da exigência de uma vida próspera, da proteção dos recursos naturais e climáticos do planeta para as gerações presentes e futuras, da promoção de sociedades pacíficas e justas, sem medo ou violência, num espírito de solidariedade global.
As escolas devem usar e abusar das metodologias participativas. A educação de pares é uma abordagem educativa que implementada com estudantes possibilita ganhos na mudança comportamental, uma vez que cada jovem é simultaneamente um modelo credível e especialista nas questões da juventude. Os programas de mentoria servem também os mesmos propósitos, permitindo a cocriação da educação e uma transição consciente e segura para a vida adulta. Importa fazer acontecer.
*Psicóloga social e comunitária, formadora, ativista e dirigente associativa e Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses


















