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ENTREVISTA: Camila Sosa Villada diz que resposta à violência anti-LGBT passa por “ofender”
Lisboa, 14 jun 2026 (Lusa)
A escritora argentina Camila Sosa Villada afirma que a violência contra pessoas travestis e LGBT nunca deixou de existir, apenas foi amplificada pelas redes sociais, e defende respostas combativas, que passam por “ofender” e “assustar”.
Escritora e travesti – como gosta de se afirmar – Camila Sosa Villada criou uma voz feminina na infância, com a qual começou a escrever, e através da qual percebeu que era mulher, muito antes de fazer a transição e de deixar definitivamente para trás o nome Cristian Omar Sosa Villada.
É com a recordação “muito antiga” de escrever o seu nome masculino, a primeira coisa que escreveu na vida, que Camila Sosa Villada começa o seu ensaio autobiográfico “A viagem inútil”, editado pela Quetzal, pretexto para uma entrevista à Lusa, durante uma passagem por Lisboa para lançar o livro. “Se não fosse a escrita, é muito possível que a minha vida tivesse sido um inferno. Ter-me-ia suicidado, farta de ser invisível até para mim”, escreveu autora.
Através da sua história pessoal, Camila Sosa Villada reflete sobre a importância que a leitura e a escrita tiveram na sua transformação corporal e identitária, que designa de travesti – rejeitando a conotação negativa do termo – em oposição ao termo “mulher trans”, por considerar a identidade uma prisão.
O sofrimento começou na infância, quando escondia dos pais os textos que escrevia como narradora feminina e quando se vestia às escondidas com as roupas da mãe, uma vida secreta que não tardou a ser descoberta, para Camila passar a ser “um corpo clandestino de mulher açoitado pela fúria alcoólica do pai”.
Simultaneamente, foi essa mesma descoberta que lhe permitiu a libertação, como a própria conta no livro: “O meu segredo, o de escrever e ser travesti, expulsou-os do meu mundo e salvou-me do ódio deles. […] A escrita e o travestismo são as armas com as quais comecei a viver como uma órfã”. Mas foi neste momento também que se abriu ao ódio do mundo, numa altura em que, na Argentina, a expectativa de vida de uma travesti, principalmente as que passaram pelas ruas e pela prostituição, como foi o seu caso, era de 35 anos, contou à Lusa.
Essa esperança curta de vida, a precariedade e a decorrente urgência de viver também torna a “trans/escrita” ou “a escrita de travestis” diferente, considera. “Havia qualquer coisa na ordem da gramática que se apressava, que se atrapalhava, que se complexificava, o facto de não se saber se se ia ou não para casa, se se ia ou não continuar a escrever, se se ia ou não terminar aquele parágrafo”.
Mas Camila Sosa Villada, hoje com 44 anos, sobreviveu às estatísticas e escreveu para contar, descrevendo um mundo que, das portas de casa para fora também era e sempre foi hostil. “Lembro-me de me levantar, ir para a universidade, o meu horário era às 10:00, tinha de sair de casa para ir para a universidade às 11:00, ia a pé. Às dez horas da manhã, na esquina da minha casa, havia um grupo de homens que, todas as manhãs, sempre que eu ia para a universidade, me gritavam insultos e me gritavam coisas”, recordou.
Numa passagem do livro, a autora recorda como, já depois de ter saído de casa, continuou a tentar ser compreendida: “Um milhão de cartas escritas aos meus pais, a tentar explicar também a minha natureza, a tentar dizer-lhes que a dor de viver era tão grande, que precisava de seguir o meu desejo para onde quer que ele fosse, mesmo até à morte, mesmo até ao sofrimento. A tentar dizer-lhes que a minha natureza não era ofensiva”. Partindo dessa frase, hoje afirma o contrário e assume essa provocação como uma estratégia de resistência. “Agora, sim, acho que a minha natureza é ofensiva. Acho que adoro ofender. O meu comportamento é ofensivo. Não é da minha natureza, é consequência do comportamento humano. Tudo o que eu faço é ofensivo. E gosto que eles percebam que também os estou a ofender”, afirmou.
Comentando as propostas de introdução de terapias de conversão para homossexuais e pessoas trans defendidas por alguns grupos, Camila Sosa Villada deixa um desafio em forma de reflexão, segundo a qual “se vamos chegar a esse extremo, a terapia de conversão pode ser para absolutamente tudo o que acharmos que é mau”, como assassinos ou violadores. “Há pessoas que vão à terapia para não comprarem mais, algumas vão para deixar de beber, há pessoas que vão para não jogar mais, tudo coisas que considero positivas. Nunca faria terapia para me curar disto, e pouco me importam as razões que alegam, a não ser que se transforme numa caçada.
Preocupa-me mais que as pessoas que fazem terapia de conversão para deixarem de ser homossexuais, aceitem que existe essa possibilidade para elas. Estou mais preocupada com isso do que com o facto de o local existir ou não”, afirmou. Da mesma forma, não se surpreende de ver o crescimento da extrema-direita e do ultraconservadorismo um pouco por todo o mundo, da homofobia e da chamada manosfera, porque acredita que a ideia de que houve um progresso social é uma falácia. “Este tem sido o meu mundo. É uma coisa da ordem do conhecimento das travestis, sobretudo as travestis da minha idade e mais velhas. É assim que o mundo sempre foi. Nunca deixou de o ser. Havia algo de charme discreto da burguesia que colocava cortinas sobre certos horrores da natureza. Saíamos para a rua e qualquer louco podia vir e insultar-nos, bater-nos e deixavam-nos caídos no meio da rua, porque ninguém vinha ajudar-nos”, afirmou.
Para Camila Sosa Villada, o que mudou foi a perceção social do fenómeno, em grande parte devido às redes sociais, um importante fator de amplificação do fenómeno, “condutores perfeitos do fascismo, que, como a água para a eletricidade, conduzem de forma perfeita”. “Este fascismo é um delírio, um delírio como o do álcool, um ‘delirium tremens’. Veem inimigos onde não há, aranhas onde não há. É uma coisa tremenda”.
Por isso, e retomando a ideia do comportamento ofensivo, privilegia a autodefesa e uma atitude mais direta, numa lógica de confronto. “Aprende a defender-te. Saber correr, ficar cada vez mais forte. Voltarmos a dar-lhes medo e não mendigar, recuperar o que é nosso, o que nos foi tirado, e assustá-los muito. Ofendê-los. Ofender, ofender, ofender. Pôr em perigo a família, pôr em perigo a sociedade, assustar o mundo inteiro. Isso parece-me ser mais importante. Que tudo esteja em risco. Porque, além disso, tudo já está em perigo”. Apesar do tom combativo, Camila Sosa Villada admite medo, confessando ter “pavor de morrer às mãos de um fanático”, descrevendo essa possibilidade como “a coisa mais insultuosa que existe”.
A escritora, autora também de “Tese sobre uma domesticação” e “As malditas”, que é ainda atriz e dramaturga, rejeita também a necessidade que a sociedade sente de encontrar explicações para a discriminação. “Nunca me coloco essas questões. Eu não me pergunto, não sei… Isso intriga-me. Não percebo por que é que há este medo”.
AL // TDI Lusa/Fim
Fonte: LUSA
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